sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Como escolher o seu psicanalista?

Primeiro penso ser interessante deixar claro que psicanalistas podem ser profissionais de qualquer área, ou seja, a psicanálise é uma atividade exclusiva e não está diretamente ligada a nenhuma profissão. Digo isso, pois o público leigo faz muitas vezes confusão entre os diferentes tipos “psi” e por isso acho válido começar este artigo mostrando as diferenças entre psicologia, psiquiatria, psicoterapia e psicanálise.


O psicólogo é um universitário que obteve um diploma de psicologia. Ele pode atuar nos mais distintos setores, como por exemplo: empresas, hospitais, creches, escolas e também em seu consultório praticando tratamentos seguindo diferentes métodos terapêuticos, entre eles a psicanálise.

O psiquiatra é um médico especialista que cuida de pacientes portadores de psicopatologias, podendo receitar remédios ou escolher o tratamento pela fala seguindo os princípios da psicoterapia ou da psicanálise.

O psicoterapeuta, assim como o psicanalista, pode possuir uma formação acadêmica em qualquer área, ou seja, pode ser filósofo, sociólogo, biólogo, advogado, arquiteto, jornalista e etc. porem é preciso uma formação específica. Existe uma diferença entre os dois métodos, na psicoterapia a escuta consiste em desenredar um conflito relacional balizando os acontecimentos da vida que o provocaram, trata-se de um trabalho de esclarecimento que permite ao paciente compreender os significados de seus conflitos e a razão de sua repetição. Já o analista tem uma escuta bem diferente, não se trata apenas de levar o paciente a compreender o encadeamento das situações que levam ao conflito, mas incitá-lo a reviver o choque emocional que gerou seu sofrimento atual. Sendo assim, não é incomum um psicanalista atuar como psicoterapeuta durante o início de um processo analítico, para depois, conforme a exigência de seu paciente operar através da técnica psicanalítica onde o analista utiliza seu próprio inconsciente para captar o inconsciente de seu analisando. O psicoterapeuta atua seguindo os preceitos das mais variadas teorias. Dentre elas as mais conhecidas por mim, são: TCC(Terapia cognitiva comportamental), psicodrama, terapia reichiana, junguiana e várias outras inclusive algumas determinadas como alternativas.

A psicanálise só pode ser exercida por um profissional que tenha passado por uma formação específica e extenuante ministrada por um instituto ou sociedade devidamente gabaritado para tal. As condições de formação se dão em um “tripé” reconhecidos como: analise pessoal, seminários e cursos teóricos e supervisão clínica, ou seja, a psicanálise só pode ser exercida por um profissional que esteja em análise pessoal à vários anos ou já há a tenha terminado, que tenha estudado longamente os textos fundadores da psicanálise e que refira seus trabalhos clínicos a um colega mais experiente que controle e garanta a qualidade do trabalho com seus pacientes. Veja que o psicanalista é um dos poucos profissionais que durante muitos anos, apresenta semanalmente a um supervisor um relatório detalhado das analises que dirige. O psicanalista é um clinico preparado aos sintomas psicológicos e somáticos, por que ele sabe que o corpo é um ressonador do inconsciente. Apesar de não agir como médico indicando e prescrevendo psicotrópicos, o psicanalista bem preparado possui um certo conhecimento sobre medicamentos e psicopatologias que o permite transitar com outros profissionais da saúde em caso encaminhamento ou recebimento de pacientes. Resumindo, a psicanálise é uma prática terapêutica que pode ser exercida por qualquer profissional de qualquer área, contanto que siga as regras compostas pelo processo de formação acoplado no “tripé” acima exposto.

Partindo deste pequeno esclarecimento sobre os diferentes métodos “psi” e principalmente sobre a complexa e sofisticada formação do psicanalista, penso que, fazer análise também tem um apelo de formação, o analisando ao entrar em contato com a psicanálise através de seu processo analítico, estará ao mesmo tempo se “alimentando” de todas as correntes culturais e sociais que nos últimos cem anos a psicanálise se viu atravessada e influenciada pelos mais diversos círculos de arte, literatura, filosofia, educação etc.

Por causa de tal sofisticação, ou seja, o analista investe muito tempo e dinheiro em sua formação, existe uma critica de que a psicanálise é um tratamento longo, doloroso e principalmente, caro. Bem não é sempre assim. Por vezes um processo analítico pode durar vários anos, mas isso depende muito da relação entre analista e analisando, a psicanálise parte do pressuposto de não criar dependência excessiva, buscando libertar e responsabilizar o analisando de suas amarras psíquicas, sendo assim um percurso de análise pode ser efetuado em apenas dois ou três anos, as vezes até menos, porem o ideal é não fixar prazos e deixar a coisa acontecer.

Quanto ao caráter doloroso da psicanálise, também não é sempre assim, ou pelo menos não deve ser. Obvio que por vezes o analisando vai sofrer com descobertas dolorosas, e vai atravessar períodos de grande emoção, porém o percurso analítico não é sempre do mesmo jeito, as vezes também dividimos momentos felizes e repartimos e avaliamos com alegria os progressos do processo que estamos encarando.

Quanto ao ser caro, este é um contexto bastante subjetivo também, pois o conceito de caro tem haver com algo que é muito importante, ou seja, se me é importante, me é caro. Penso que dentro deste conceito fazer análise não é um gasto e sim um investimento, que por vezes é pequeno pelas recompensas vitais recebidas através da terapia em relação as condutas de fracasso, distúrbios sexuais, crises de casal, depressão etc. Mesmo assim, eu por exemplo procuro sempre adaptar meus honorários as possibilidades financeiras do paciente, além de atender também através da clinica social do instituto do qual faço parte.

Depois de tudo que foi exposto, como então deve-se escolher um psicanalista? Penso não se tratar de algo muito fácil, acredito que tal escolha transite profundamente dentro de um contexto bastante pessoal, ou seja, trata-se de algo de uma intuição e ou percepção. É muito comum recebermos indicação de colegas, profissionais da área da saúde e principalmente de nossos analisandos,a partir daí há uma certa identificação o que pode ser um bom começo, porém só mesmo no primeiro encontro, e por vezes no segundo ou terceiro é que fica mais fácil avaliar. Não é recomendado procurar vários profissionais, mas pode ser salutar consultar dois ou três, não mais do que isso. Penso portanto que a impressão que fica no início é uma boa pista para o futuro da análise, ou seja, se foi uma impressão positiva, se o analisando se sentiu confortado e acolhido as chances são muito boas. O psicanalista J. D. Násio diz o seguinte em seu livro “Um psicanalista no Divã”: “Eis o que determinará a escolha do terapeuta: a secreta convicção de que me compreendeu e que está prestes a me acompanhar; em suma, a sensação de que o clínico que acabo de encontrar me fez bem de cara.”

Concluindo, para se escolher um analista, é preciso primeiro se perguntar se você se considera analisável, ou seja, em primeiro lugar deve-se ser um sujeito que sofra e se queixe; a queixa é de capital importância. Ao se perguntar por que sofre e por que esta tão mal pode então partir para escolha do seu analista e após o início começar a se sentir melhor e acreditar que será este analista que mudará o curso de sua vida, pois é ele quem detém a chave de seu problema.



BIBLIOGRAFIA:

-NÁSIO, J. D. Um Psicanalista no Divã. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar. Ed. 2003

sábado, 4 de agosto de 2012

Eu amo meu cachorro!

A algum tempo atras fomos comemorar o aniversário do meu tio em uma pizzaria aqui de Ribeirão Preto, a família, que é grande, se reuniu em várias mesas que foram juntadas. Já no final da noite, notei que na última mesa do canto onde estavam sentados os adolecentes o silêncio era total. Ao observar melhor, notei que todos os cinco jovens, sem excessão, estavam com seus aparelhos celulares “tuitando”, “mensageando” e sei lá mais o que “ando” com amigos que estavam do outro lado do aparelho. Fiquei intrigado com a cena. Afinal, porque cinco primos da mesma faixa etária e que se dão super bem preferem ficar a maior parte do tempo “conversando” ou buscando informações alheias com outros, do que aproveitar o momento que estão juntos para saborear a presença física de seus familiares? Por que as pessaos quando estão em algum espaço público(aeroportos, rodoviárias, bancos e etc.) preferem ficar infurnados em seus aparelhos telefónicos, seus notebooks, laptops, tablets e outras parafernálias tecnológicas em vez de conversar com seus “vizinhos” de fila de espera. Outro dia, fiz uma viagem de avião e fiquei espantado pelo fato de como as pessoas hoje em dia mal comprimentam os outros que estão ao seu lado, mas se mantém conectado o tempo todo com “alguém” através do celular, email, twitter e facebooks da vida. Sem falar nos mal educados, que conversam em vóz alta em seus telefones-radio, fazendo o favor de fazer você ouvir o que ele e outro fala, ora, faça-me o favor.

Mas o que tem tudo isso a ver com o titúlo deste artigo? Bem, não sei exatamente, mas me parece haver algo muito intrigante nas relações das pessoas com seus animais e que de alguma forma observamos nestas relações “virtuais” que relacionei acima. Acredito que tenha algo muito forte representado aí, algo relacionado ao amor e suas nuances relacionais.

Na semana passada, um paciente meu, chegou ao meu consultório incrivelmente irritado, e ao ser perguntado do porque de tal irritação, logo se pos a contar sobre o problema com o vizinho que tinha um cachorro da raça labrador, que latia sem parar principalmente nos fins de semana. Me disse que os donos(um casal sem filhos), ficavam o dia todo fora por motivo de trabalho e de noite estudavam chegando em casa bem tarde, além disso, nos finais de semana, costumavam viajar para visitar os pais em outra cidade e deixavam o cachorro sozinho. Ao reclamar com o vizinho sobre tais condições de infortúnio e sugerir que o cão fosse dado à alguém que pudesse estar mais presente com ele, ouviu a calorosa frase que intitula este artigo: “Nem pensar…eu amo o meu cachorro”. A algum tempo atrás lí em uma reportagem no jornal “Folha de São Paulo” sobre o aumento significativo do numero de pessoas que possuiam animais domésticos em casa, principalmente cães e gatos, ou seja, cada vez mais as pessoas fazem questão de ter em casa um animal para lhes fazer companhia e ao mesmo tempo se percebe um volume muito maior de casais sem filhos ou com no máximo dois. Ao pensar sobre tudo isso,me veio a mente a frase que um professor de psicanálise me disse a alguns anos atrás: “É muito fácil querer ser amado, o difícil mesmo é amar”.

Me parece que nestes tempos de internet, de cães e gatos domésticos com regalias jamais vistas, a dificuldade de amar se faz presente. Ao amarmos à distância, seja pela internet ou abandonando nossos queridos animais sozinhos em casa, não nos preocupamos com a capacidade de amar e sim com a facilidade de ser amado, afinal, mesmo que você passe a semana toda fora de casa ou longe de seu facebook, assim que você chega, o seu cão vem correndo com o rabo abanando lhe dar um “abraço” e ao se conectar com seus mais de “4.365 amigos” do Face e apertar o cursor no “curtir” tudo volta ao normal.

O filósofo grego Platão já dizia que o amor é essencialmente uma necessidade não satisfeita, é a percepção da falta de alguma coisa essencial para a própria completude. Ou seja, ama-se quando se deseja algo que não se tem. Hoje em dia, parece que as pessoas estão sempre com a sensação de que estão perdendo algo, parece sempre haver algo “melhor” em algum outro lugar ou com alguma outra pessoa, é como se não pudéssemos perder nada, ou seja, se estou jantando com meu tio em seu aniversário estou também com meu amigo na “balada”. Talvez, em um mundo onde o que parece importante é estar conectado a tudo e a todos e as relações virtuais são imprescindíveis e ao mesmo tempo superficiais, os cães e gatos de nossas casas, e principalmente o da casa do vizinho tenham muito a nos ensinar, pois ao abanar o rabinho depois de alguns dias sem vê-lo ou mesmo passear com ele, ele deixa claro que sua capacidade de amar sem exigir muito em troca é muito maior do que a nossa, talvez seja por isso que cada vez mais as pessoas preferem ter seus animais de estimação do que ter algum familiar em sua própria casa, afinal deve-se pensar assim: “Eu amo meu cachorro, eu nem dou muita atenção à ele e mesmo assim quando chego em casa ele vem correndo me lamber e me abraçar”.

Coitado do vizinho, que tem que aguentar o animal angustiado com seus latidos de desespero por não ser amado como gostaria. “Au, au”.


Marcos C. Ciciarelli é psicanalista e filósofo.







terça-feira, 24 de julho de 2012

Estética: O belo mais que divino.

Que maravilha a filosofia, não é?

Durante a minha graduação, a filosofia esteve sempre me espantando, me surpreendendo. Fiquei admirado com o pensamento de Heráclito, depois com a filosofia Socrática, passando pelo medievo, os modernos e contemporâneos, sempre enxergando algo de "Belo" nas teorias e seus teóricos.

No final do curso, não foi diferente, uma disciplina que se chamava "Estética", que significa o poder de sentir, de percepção das coisas, que do ponto de vista filosófico se volta ao estudo racional do belo e da percepção da arte pelo humano.

Não pude deixar de notar a semelhança, mais uma vez, entre filosofia e psicanálise no fantástico texto de Pareyson sobre a interpretação da obra de arte e do belo artístico com a interpretação psicanalítica, que tem tudo a ver com arte, poesia e suas características inacabadas e de infinitude.

E por falar em arte, nada melhor do que o "Renascimento". O fenômeno Renascentista reside tanto na pura diversidade de suas expressões como em seu caráter inovador. No espaço de apenas uma geração, Leonardo da Vinci, Michelângelo e Rafael produziram suas obras primas, Colombo descobriu o "Novo Mundo", Lutero rebelou-se contra a igreja católica e Copérnico teorizou o Universo heliocêntrico. Comparando aos antecessores medievais, o Homem do Renascimento parece ter saltado para uma situação sobre humana, ele era agora capaz de entender e refletir sobre os segredos da natureza, tanto na arte como na ciência, com incrível sofisticação matemática, precisão empírica e inigualável força estética. O homem do Ocidente renascera.

Ao comparar a visão artística do renascimento com o medievo fica claro um distanciamento da figura divina para uma aproximação com a figura do homem. O homem já não era mais tão secundário em relação a Deus, à igreja, ou à natureza. A proclamação de Pico della Mirândola sobre a dignidade humana parecia realizada em muitas frentes e em vários campos de atividade.

Enquanto a Idade Média com seu sistema Feudal e seus dogmas católicos impedia um desenvolvimento científico e estético, pois se prendia a problemática do Belo divino o Renascimento busca justamente o contrário, ou seja, se no medievo o físico era feio, no renascimento é modelo de genialidade e criatividade. Conforme costumava dizer Rafael, o artista deve apresentar em suas obras não o mundo como foi criado por Deus, mas como deveria ser criado. Homem é o que faz de si mesmo e não o que tinha herdado via sangue nobre(propriedade, status).

Como diria Leonardo da Vinci: "A arte é filosofia"

Talvez esteja aí a grande mudança. Para os medievais, a visão artística estava escurecida pelos dogmas da igreja, onde a única visão era a de um belo divino, já com o renascimento a visão artística se resplandece com a própria beleza da filosofia e daquele que a pratica: o homem.

Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista, Filósofo e Coach.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Parceiros da Noite - A questão da Homossexualidade

Fiquei muito grato com o convite para fazer os comentários deste maravilhoso filme estrelado pelo magnífico ator Al Pacino. Além da minha presença, os coordenadores do Cine Távola também convidaram o crítico de cinema Alexandre Carlomagno para dividir a mesa e dar suas valorosas opiniões sobre este filme que aborda um assunto bastante polêmico: A homossexualidade. Nos meus comentários utilizei um texto que havia escrito e que publico na integra logo abaixo:
Ao ler o jornal “A Folha de São Paulo” me deparei com duas reportagens na mesma página que me deixaram profundamente preocupado com os rumos que a nossa sociedade se propóe. Em uma delas a manchete se dirigia a questão relacionada a uma “cura” dos gays proposta pela bancada evangélica na camara dos deputados e a outra era sobre uma “profissional” da área psi que se auto-intitula: “Psicologa cristã”. Fiquei pensando se ainda estávamos sobre o domínio da Igreja da Idade Média ou se ainda vivíamos em tribos primitivas onde mitos e ritos selavam as maneiras e os destinos de vida dos homens e das  mulheres. Ora, em que tempo estamos vivendo, onde milhões de pessoas precisam se reunir em “Paradas” para defender os direitos de quem eles pensam que são e que de alguma forma parece definí-los de uma vez por todas enquanto humanos. Como alguém, em pleno século 21 pode achar que ser gay ou hétero, evangélico, católico ou ateu pode dizer quem ele é ou quem o outro é. Afinal o que somos? O que significa alguém que é Gay? Ou alguém que seja ateu? E principalmente, por que essas diferenças trazem tanto infortúnio? Por que pessoas são descriminadas por terem determinados comportamentos que aparentemente não estão em conformidade com os da maioria?

Primeiro não podemos nos esquecer que as pessoas são diferentes, ou seja, somos seres singulares, cada um com suas nuances e sua história. Não é incomum observarmos na clínica pessoas que por muito tempo tiveram relações hétero-sexuais chegando a se casar e ter filhos e depois optarem por viver se relacionando com pessoas do mesmo sexo. Muitos deles chegam até nós emocionalmente destruidos, pois a sociedade não os aceita mais, é como se essa pessoa não fosse mais ninguém, mesmo que sempre tenha sido um bom profissional, bom marido, bom pai, bom amigo, por vezes tal pessoa é rejeitada por todos ou quase todos fazendo com que passe a viver em guetos.

Na prática clínica percebemos que tais definições não passam de pseudo-definições, a coisa é muito mais complexa do que podemos imaginar. Em nosso psiquismo, o conjunto de desejos e circuitos pulsionais nos coloca, ou melhor, nos deixa em uma condição de refém em relação a determinados conhecimentos sobre nós mesmos e principalmente em relação ao outro. Desde o início da psicanálise, Freud nos deu a noção de que ao nascermos ainda não estamos psiquicamente definidos como seres homo ou hétero em relação a sexualidade, ou seja, não ocorre em nós logo de início uma espécie de “marca” biológica que vai nos dizer definidamente quem somos. Em nosso aparelho psíquico, nem sempre 2+2 são 4, portanto as coisas se tornam muito mais complexas do que a maioria de nós pensa ou gostaria que fosse, ou seja, não dá para definir alguém por causa de seus afetos eróticos. Não se pode colocar alguém no limbo por gostar de se relacionar com que quer que seja. Não é uma doença se relacionar com alguém do mesmo sexo, haja vista que isso ocorre com todos nós. O próprio Freud teve relações apaixonadas com companheiros e discípulos e nem por isso mantinha relações sexuais com eles, ou seja, a relação sexual no sentido estrito da palavra, é apenas uma outra instância de uma relação afetiva e ou erótica. Quero dizer com isso que em nada difere psiquicamente em nós uma relação homo-afetiva que tenha um cunho sexual ou não, e mais, podemos e temos o tempo todo relações homo-afetivas, homo-eróticas e homo-sexuais com pessoas do sexo oposto. Ora, mais como isso é possível? Isso ocorre através de nossas relações transferenciais, onde por vezes colocamos o outro na posição de um outro e que pode ser de outro sexo. Na relação psicanalítica isto é muito comum, o psicanalista é sempre colocado no papel de pai, mãe, marido e esposa por exemplo, nas relações pessoais por vezes nos relacionamos com pessoas de um sexo oposto mas que inconscientemente estamos na verdade nos relacionando com “algo” do mesmo sexo daquela pessoa. Observamos muito isso com o fetiche em relação a determinado objeto por exemplo. Bem, não pretendo entrar aqui muito na teoria, pois a ideia não é essa. A ideia é sim a de debater sobre posições talvez impostas por questões culturais arcaicas que implicam em desentendimentos que me parecem desnecessários nesta altura do campeonato. Talvez devêssemos estar perdendo nosso precioso tempo com coisas mais produtivas em relação a humanidade e não a de se curar algo que não é considerado doença nem mesmo pelos médicos e muito menos a ideia de que um curador tenha ou possa estar ligado a algo divino para realizar tal cura. Profissionais da área psi, tem de ser isentos de qualquer tipo de preconceito e se abster totalmente de qualquer tipo de julgamento, podem até ter suas crenças e preferências pessoais, mas isso deve ficar fora do consultório. Devemos lembrar que o que trás o paciente até o nosso consultório não é o sofrimento imposto por sua escolha ou dúvida sexual, e sim a tormenta emocional que esta sociedade dogmática e arcaica lhe impõe por aparentemente não fazer parte de uma pseudo-maioria de gente que se pensa normal e virtuosa.

Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

Circulô Saber

Na foto: Marcos Ciciarelli, Dr. Alcides de Souza, Dr. Marcelo Ciciarelli e Luis Henrique Milan Novaes. No último dia 11/06/12 recebí como curador, o psicanalista Dr. Alcides de Souza e o neurologista Dr. Marcelo C. Ciciarelli, para um descontraído bate papo sobre a "Dor e a delícia de ser" no Cervejáriun em Ribeirão Preto. Foi um prazer enorme receber a todos que lá estiveram e puderam desfrutar de um momento recheado de sabedoria e informação. Obrigado mais uma vez.

A alma não é uma coisa.

Este é o título de um capitulo do livro "Por que a psicanálise?" da brilhante escritora, historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, onde ela cita algo como: "Quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é a psicanálise. Não mais sentir vergonha se si mesmo é a realização da liberdade. É isso que uma análise bem conduzida ensina aos que pedem socorro a ela e guardam por seus psicanalistas uma gratidão infinita."
Em uma sociedade cada vez mais pragmática, liberal depressiva e sem tempo pra nada, observa-se na clínica uma parcela cada vez maior de pessoas carregadas de angústia, ansiedade, agitação e melancolia, tentando se safar através de tratamentos rápidos e psicofarmácos "mágicos", buscando uma posição cada vez menos conflituosa. Pensar dói e é difícil, porém, onde há o sujeito, a paixão, o desejo e uma história, não há outra saída. A psicanálise conquista o mundo através da singularidade da experiência subjetiva, colocando o inconsciente, a perda e a sexualidade no cerne da alma humana.

Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.