Primeiro penso ser interessante deixar claro que psicanalistas podem ser profissionais de qualquer área, ou seja, a psicanálise é uma atividade exclusiva e não está diretamente ligada a nenhuma profissão. Digo isso, pois o público leigo faz muitas vezes confusão entre os diferentes tipos “psi” e por isso acho válido começar este artigo mostrando as diferenças entre psicologia, psiquiatria, psicoterapia e psicanálise.
O psicólogo é um universitário que obteve um diploma de psicologia. Ele pode atuar nos mais distintos setores, como por exemplo: empresas, hospitais, creches, escolas e também em seu consultório praticando tratamentos seguindo diferentes métodos terapêuticos, entre eles a psicanálise.
O psiquiatra é um médico especialista que cuida de pacientes portadores de psicopatologias, podendo receitar remédios ou escolher o tratamento pela fala seguindo os princípios da psicoterapia ou da psicanálise.
O psicoterapeuta, assim como o psicanalista, pode possuir uma formação acadêmica em qualquer área, ou seja, pode ser filósofo, sociólogo, biólogo, advogado, arquiteto, jornalista e etc. porem é preciso uma formação específica. Existe uma diferença entre os dois métodos, na psicoterapia a escuta consiste em desenredar um conflito relacional balizando os acontecimentos da vida que o provocaram, trata-se de um trabalho de esclarecimento que permite ao paciente compreender os significados de seus conflitos e a razão de sua repetição. Já o analista tem uma escuta bem diferente, não se trata apenas de levar o paciente a compreender o encadeamento das situações que levam ao conflito, mas incitá-lo a reviver o choque emocional que gerou seu sofrimento atual. Sendo assim, não é incomum um psicanalista atuar como psicoterapeuta durante o início de um processo analítico, para depois, conforme a exigência de seu paciente operar através da técnica psicanalítica onde o analista utiliza seu próprio inconsciente para captar o inconsciente de seu analisando. O psicoterapeuta atua seguindo os preceitos das mais variadas teorias. Dentre elas as mais conhecidas por mim, são: TCC(Terapia cognitiva comportamental), psicodrama, terapia reichiana, junguiana e várias outras inclusive algumas determinadas como alternativas.
A psicanálise só pode ser exercida por um profissional que tenha passado por uma formação específica e extenuante ministrada por um instituto ou sociedade devidamente gabaritado para tal. As condições de formação se dão em um “tripé” reconhecidos como: analise pessoal, seminários e cursos teóricos e supervisão clínica, ou seja, a psicanálise só pode ser exercida por um profissional que esteja em análise pessoal à vários anos ou já há a tenha terminado, que tenha estudado longamente os textos fundadores da psicanálise e que refira seus trabalhos clínicos a um colega mais experiente que controle e garanta a qualidade do trabalho com seus pacientes. Veja que o psicanalista é um dos poucos profissionais que durante muitos anos, apresenta semanalmente a um supervisor um relatório detalhado das analises que dirige. O psicanalista é um clinico preparado aos sintomas psicológicos e somáticos, por que ele sabe que o corpo é um ressonador do inconsciente. Apesar de não agir como médico indicando e prescrevendo psicotrópicos, o psicanalista bem preparado possui um certo conhecimento sobre medicamentos e psicopatologias que o permite transitar com outros profissionais da saúde em caso encaminhamento ou recebimento de pacientes. Resumindo, a psicanálise é uma prática terapêutica que pode ser exercida por qualquer profissional de qualquer área, contanto que siga as regras compostas pelo processo de formação acoplado no “tripé” acima exposto.
Partindo deste pequeno esclarecimento sobre os diferentes métodos “psi” e principalmente sobre a complexa e sofisticada formação do psicanalista, penso que, fazer análise também tem um apelo de formação, o analisando ao entrar em contato com a psicanálise através de seu processo analítico, estará ao mesmo tempo se “alimentando” de todas as correntes culturais e sociais que nos últimos cem anos a psicanálise se viu atravessada e influenciada pelos mais diversos círculos de arte, literatura, filosofia, educação etc.
Por causa de tal sofisticação, ou seja, o analista investe muito tempo e dinheiro em sua formação, existe uma critica de que a psicanálise é um tratamento longo, doloroso e principalmente, caro. Bem não é sempre assim. Por vezes um processo analítico pode durar vários anos, mas isso depende muito da relação entre analista e analisando, a psicanálise parte do pressuposto de não criar dependência excessiva, buscando libertar e responsabilizar o analisando de suas amarras psíquicas, sendo assim um percurso de análise pode ser efetuado em apenas dois ou três anos, as vezes até menos, porem o ideal é não fixar prazos e deixar a coisa acontecer.
Quanto ao caráter doloroso da psicanálise, também não é sempre assim, ou pelo menos não deve ser. Obvio que por vezes o analisando vai sofrer com descobertas dolorosas, e vai atravessar períodos de grande emoção, porém o percurso analítico não é sempre do mesmo jeito, as vezes também dividimos momentos felizes e repartimos e avaliamos com alegria os progressos do processo que estamos encarando.
Quanto ao ser caro, este é um contexto bastante subjetivo também, pois o conceito de caro tem haver com algo que é muito importante, ou seja, se me é importante, me é caro. Penso que dentro deste conceito fazer análise não é um gasto e sim um investimento, que por vezes é pequeno pelas recompensas vitais recebidas através da terapia em relação as condutas de fracasso, distúrbios sexuais, crises de casal, depressão etc. Mesmo assim, eu por exemplo procuro sempre adaptar meus honorários as possibilidades financeiras do paciente, além de atender também através da clinica social do instituto do qual faço parte.
Depois de tudo que foi exposto, como então deve-se escolher um psicanalista? Penso não se tratar de algo muito fácil, acredito que tal escolha transite profundamente dentro de um contexto bastante pessoal, ou seja, trata-se de algo de uma intuição e ou percepção. É muito comum recebermos indicação de colegas, profissionais da área da saúde e principalmente de nossos analisandos,a partir daí há uma certa identificação o que pode ser um bom começo, porém só mesmo no primeiro encontro, e por vezes no segundo ou terceiro é que fica mais fácil avaliar. Não é recomendado procurar vários profissionais, mas pode ser salutar consultar dois ou três, não mais do que isso. Penso portanto que a impressão que fica no início é uma boa pista para o futuro da análise, ou seja, se foi uma impressão positiva, se o analisando se sentiu confortado e acolhido as chances são muito boas. O psicanalista J. D. Násio diz o seguinte em seu livro “Um psicanalista no Divã”: “Eis o que determinará a escolha do terapeuta: a secreta convicção de que me compreendeu e que está prestes a me acompanhar; em suma, a sensação de que o clínico que acabo de encontrar me fez bem de cara.”
Concluindo, para se escolher um analista, é preciso primeiro se perguntar se você se considera analisável, ou seja, em primeiro lugar deve-se ser um sujeito que sofra e se queixe; a queixa é de capital importância. Ao se perguntar por que sofre e por que esta tão mal pode então partir para escolha do seu analista e após o início começar a se sentir melhor e acreditar que será este analista que mudará o curso de sua vida, pois é ele quem detém a chave de seu problema.
BIBLIOGRAFIA:
-NÁSIO, J. D. Um Psicanalista no Divã. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar. Ed. 2003
Muito bom o texto. Estou decidindo mudar de área, e escolhi a psicanalise... Estou pesquisando sobre a profissão psicanalise e esse texto vai muito de encontro com os resultados que quero dar aos meus futuros pacientes.
ResponderExcluirMuito bom o texto. Estou decidindo mudar de área, e escolhi a psicanalise... Estou pesquisando sobre a profissão psicanalise e esse texto vai muito de encontro com os resultados que quero dar aos meus futuros pacientes.
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