A IMPORTÂNCIA DO SONO
Certa vez em uma aula de psicossomática um brilhante professor do nosso curso nos dizia sobre a importância do sono na vida das pessoas. A aula era sobre questões sobre o trabalho e suas nuances estressantes que por vezes nos acarretam patologias psicossomáticas, gerando crises emocionais desencadeadas pelo acúmulo de horas trabalhadas e excesso de pressão por resultados entre outras coisas mais. Sabemos que muitas pessoas, talvez a grande maioria trabalha por profissão, ou seja, por necessidade e não por vocação, o psicanalista Ruben Alves disse certa vez em um livro que quem trabalha por profissão, “trabalha pelo ganho” e os que trabalham por vocação, “trabalha como quem faz amor, como quem brinca”.
Voltando ao sono, meu professor apesar de frisar a importância de se dormir por pelo menos oito horas por noite, nos confessou que ele próprio não conseguia dormir “tanto”, pois considerava tal fato um desperdício da vida. Chegou até mesmo a fazer uma conta, onde uma pessoa que dorme seis horas por noite aproveita duas horas a mais de vida por dia, dez horas a mais por semana, quarenta por mês e assim por diante, e terminou dizendo: “Já pensaram em uma pessoa que viva setenta e cinco anos, quanto tempo a mais de vida ela terá do que uma outra da mesma idade que durma duas horas a mais por noite”. Tal colocação me deixou profundamente intrigado, pois para mim particularmente o sono é algo bem vivo e saboroso. A vivência do sono está em vários fatores, no início dele sente-se aquela maravilhosa sensação do poder descansar, durante boa parte dele, simplesmente nos apagamos do mundo, o que é extremamente maravilhoso, depois tem a fase do sonho, que como nos ensinou Freud, “o sonho é o guardião do sono”, ou seja, ao sonhar você tem sua capacidade de dormir preservada, além do mais em qual outro momento do dia você seria capaz de: voar, enfrentar serpentes, namorar pessoas maravilhosas, se encontrar com pessoas jamais vistas ou reencontrar pessoas que não estão mais presentes nesta vida.
O sono é algo para ser degustado, assim como se degusta uma boa comida ou um bom vinho, trata-se de um momento singular, onde cada um tem o seu, um momento extremamente particular, onde passamos a viver experiências únicas; alguns dormem de lado, outros de barriga para cima, alguns roncam, outros dormem em silêncio profundo, alguns suam tanto que acordam com a camisa do pijama totalmente molhada, outros acordam ainda arrepiados pelo frescor da madrugada de inverno, alguns se embaraçam entre três ou quatro travesseiros novos, alguns se bastam com apenas um e bem velhinho, alguns preferem dormir sozinhos em camas King size, e outros adoram dormir agarradinhos em uma cama de solteiro. Eu sou um degustador de sono, se pudesse dormiria tranquilamente mais de oito horas por noite, e não me sinto perdendo nada, muito pelo contrário, sinto que perde quem não dorme ou dorme pouco, pois para mim, dormir é uma vocação e não uma obrigação, eu não durmo para acordar logo e ganhar horas de vida, eu durmo para perdê-las, assim como faz como quem se perde por amor em uma cama de solteiro bem agarradinho.
À propósito, estou escrevendo este texto as quatro e meia da madrugada depois de ter meu maravilhoso momento de sono interrompido por meus dois filhos pequenos, o primeiro, que sonhou com monstros e ainda não percebeu que os monstros é que são bonzinhos e o segundo, fez xixi na cama e veio nos pedir uma ajudinha. Bom, acho que vou tentar ganhar mais algumas horinhas de vida.
Boa noite, ou bom dia.
Marcos C. Ciciarelli é Psicanalista e Filósofo.
Membro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática – Reg. Rib.Preto