terça-feira, 26 de maio de 2015

VOCÊ TRABALHA POR PROFISSÃO OU VOCAÇÃO?

Profissão e vocação são coisas diferentes. A realização e a plenitude, serão  encontradas na diferença entre aquilo que fazemos como trabalho por obrigação de profissão ou amor de vocação.
Profissão é o que se faz para ganhar dinheiro, é algo que se aprende, as profissões nos são ensinadas de fora para dentro, são escolhidas ou por razoes praticas, ou por imposições externas ou por ilusões. A primeira é aquela que normalmente acontece quando o filho resolve seguir a profissão do pai, para aproveitar as benesses da clientela formada e um nome já concretizado, a segunda é quando o pai ou alguém da família impõe ao jovem a continuidade do negócio ou do escritório da família e a terceira é quando, por exemplo a mãe acha uma profissão maravilhosa, charmosa e rentável e por isso o jovem não pode ter outra escolha.
Vocação é bem diferente, não pode ser ensinada, não se aprende, ela nasce com a gente, brota de dentro do corpo/alma, como fonte. Vocação vem do verbo “vocare”, que quer dizer “chamar”. É uma voz interior que chama e indica uma direção a ser seguida. Se tal direção for seguida, é até possível que a pessoa venha a ter momentos de felicidade. A vocação nasce com a gente, misteriosamente, ela é nosso caso de amor com algo que se faz.
O filósofo Martin Buber, coloca a vocação bem no centro da sua filosofia. Ele diz que, em cada um de nós, há uma voz que nos chama a seguir um caminho, é a voz que nos seduz a sermos fieis para com o nosso próprio ser. Ela nos revela o caminho que deve ser seguido para que possamos realizar a verdade que dorme em nós. Ao ouvir a voz, o individuo se aproxima do que ele realmente é e daquilo que ele deve ser. Se ele não a obedecer, acabará por perder o senso de direção e poderá passar o resto da vida a procura de algo que ele não sabe o que é. Não são poucos os profissionais bem-sucedidos cujas vidas são um tédio sem fim.
Neste monstruoso mercado de profissões, com tantas exigências e interferências, o barulho é tão grande que as pessoas, na maioria das vezes, não conseguem ouvir a voz que lhes fala de dentro. Escolhem suas profissões como bois que vão para o matadouro.
Eu, por profissão, trabalhei durante anos no mercado financeiro como executivo e consultor, mais tarde em minha vida, graças a psicanálise consegui ouvir e seguir minha voz interior e me tornei psicanalista, que é um oficio e é a minha vocação.
Um tal de Noé, por profissão fabricava vinhos, bem mais tarde em sua vida ouviu uma voz interior e se tornou um construtor de navio. Se não fosse por isso, ele teria morrido afogado.

Marcos C. Ciciarelli, é Psicanalista.

Bibliografia:

-ALVES, R. Conversas sobre educação. Campinas, SP: Versus Editora, 2003.

terça-feira, 12 de maio de 2015

POSSO FAZER PSICANÁLISE COM UM AMIGO?

Sim, claro que pode. Esta é uma pergunta que me fazem com frequência e mais uma das várias místicas que permeiam o mundo da psicanálise. Não sei quanto as outras linhas psicoterapêuticas, mas na psicanálise, em toda sua obra teórica desde seu fundador S. Freud, até os mais atuais, não há uma linha se quer onde se diz ser proibido ou impossível a realização de um processo de análise entre duas pessoas que se conhecem, ou que se consideram amigas. Há sim, alguns aconselhamentos e ressalvas sobre o atendimento de amigos. No caso dos psicólogos clínicos, o próprio Conselho Regional de Psicologia diz: "A decisão pelo atendimento é do(a) psicólogo(a), que considerará se o atendimento interferirá negativamente nos objetivos do serviço prestado, uma vez que não há nada na regulamentação que proíba especificamente o atendimento de familiares e/ou conhecidos(as)." 

Podemos então partir deste ponto: Outro dia encontrei um amigo que eu não via e não falava com ele a mais de vinte anos. Ao me encontrar, logo me abordou dizendo que vinha passando por problemas que encadearam alguns sintomas de pânico, me disse que estava tomando algumas medicações e que outro dia em um jantar entre amigos, quando a conversa girou neste assunto, alguém disse o meu nome e indicou que me procurasse. Ele achou a ideia excelente, mas neste exato momento, alguém na mesa disse: “Nem precisa procurá-lo, se vocês são amigos, você não pode fazer análise com ele”.

Afinal, qual é o conceito de amizade? Quando é que duas pessoas podem se considerar amigas? Aquele que você considera amigo te considera da mesma forma? Então, qual é o “nível” de amizade permitido para que possa haver um processo saudável e de sucesso em psicanálise? Se entramos por aí, iremos navegar por uma seara nada psicanalítica, ou seja, a de tabelar e ou mensurar as coisas. Psicanálise e dogma não combinam, ou melhor, não podem estar nem próximos um do outro, níveis de amizade não existem, o que existem são escolhas: “Este é meu amigo”, “aquele é meu conhecido” e “fulano é meu colega”, ou então, “com este eu faço analise”, “com aquele eu não faço análise” e “com fulano eu até faria análise”. O que estou querendo dizer é que, o grau de relacionamento que você tem com uma pessoa, não se torna um fator de inclusão e ou de exclusão em um contexto analítico entre ambos.

A amizade pode ser até mesmo uma vantagem para o processo, pois com ela, vem junto uma boa carga de empatia, carinho, identificação e outras coisas mais que são muito importantes em um processo de análise, mas pode ser também uma desvantagem, assim como em qualquer relação profissional entre amigos. Para ficar mais claro, vejamos alguns exemplos que já presenciei em minha vida: Um investidor pode querer não investir seu dinheiro na corretora de um amigo, pois ele não quer que o amigo saiba quanto e nem a origem do dinheiro que ele tem. Um cliente pode não querer levar seu carro na oficina de seu amigo, pois ouviu falar que os serviços não eram tão bons e ele não queria estragar a amizade. Ou então, um paciente só freqüenta consultórios de médicos amigos, pois se sente mais acolhido e protegido. Ou o executivo prefere contratar amigos, pois confia mais neles do que em desconhecidos. Afinal, que amigo são esses?

Com a psicanálise isso também ocorre. Óbvio que são coisas distintas e o processo analítico pode tocar em coisas bastante complicadas o que pode mexer profundamente com os dois envolvidos. Por isso, acredito que para se atender ao chamado de um amigo para se fazer análise, o analista tem que estar muito bem preparado, pois provavelmente enfrentará maiores complicações nas questões de transferência e contra transferência o que pode tornar o processo um pouco mais difícil e delicado. Mas nada impede que tal processo ocorra, pois se analisando e analista se escolheram, é por que ambos se identificaram e perceberam que na formação daquela dupla estava a chave para o caminho que deveria ser perseguido.

Em tempo, eu atendo meus amigos sem problemas. Não existe uma regra básica, porém procuro evitar se possível, somente os que são muito íntimos, que freqüentam minha casa e eu as deles e das quais as mulheres e filhos também tem um forte laço de amizade. Ou seja, se você é analista e tem um amigo que você não vê com freqüência, não se relaciona com seus familiares com freqüência e não tem muita ideia do que se passa com ele. Talvez um processo de análise seja uma boa oportunidade de vocês estarem mais próximos e numa relação que tem tudo para ser mais construtiva e interessante do que a da "amizade meia boca” que vocês vem levando a muito tempo.


Marcos Ciciarelli, Psicanalista.