terça-feira, 22 de setembro de 2015

A SAÍDA PARA CRISE É O INCONSCIENTE?
Neste momento de crise econômica e principalmente política, surge na clínica muitas das neuroses vigentes de insegurança, medo, pânico, desespero e outras mais.
Penso então em como passar por isso tudo sem sermos totalmente ou parcialmente atacados. Penso que nossa função é a de trazer o individuo para seu mundo interno, passar a idéia de que os conflitos pelos quais ele passa e vive, são conflitos internos e não externos, portanto eles não existem, pelo menos não da forma que pensamos. Mostrar que a única forma para se chegar a alguma conclusão sobre os problemas do mundo é se conectar com seu mundo mental, pois é nele que está a chave dos seus problemas e dos problemas do mundo.
As eternas guerras e violências entre povos, países, partidos, times, tribos, religiões e tudo mais que tem um lado de cá e outro de lá, provém provavelmente da falta de contato com nosso mundo psíquico, pois a maioria de nós não sabe que tem uma mente. Sim, a maioria de nós não tem a mínima idéia que possui um aparelho psíquico, e que nele existe uma “matriz operacional” que chamamos de: Inconsciente, e que ao qual respondemos o tempo todo, ou seja, atuamos no mundo através daquilo que não sabemos, ou como diria Freud: “Nós não somos o senhor dentro de nossa própria casa”.
A maioria esmagadora de nós, não faz a mínima idéia do por que está com raiva, ódio, inveja, ciúme, alegria, gratidão, paixão, interesse, pânico e muitos outros sentimentos e emoções.
Penso ser o acesso ao mundo mental a única possibilidade de vivermos em um mundo diferente do que está aí. Apesar de me parecer utópico um mundo muito diferente deste em que vivemos, haja vista que a maioria de nós irá continuar em sua ignorância psíquica. Porém aqueles que se submeterem as suas habilidades internas terão melhores condições para lidar com as intempéries da vida e suas frustrações. Esses, como diriam os filósofos clássicos, sairiam da escuridão das cavernas e deixariam de viver como primatas antropóides que destroem a tribo vizinha por um pedaço de alguma coisa qualquer.
Parece que não aprendemos a viver de forma integrada até hoje, talvez por não suportar a presença do outro que é sempre diferente de nós, pois não suportamos as diferenças que existem em nós mesmos. Com nossa fragilidade identitária, buscamos refugio na tribo mais próxima, ali fugimos de nós mesmos e nos escondemos atrás de um narcisismo grupal salvaguardado por um superego coletivo ou de uma liderança patriarcal. Nós, que caímos das árvores ontem, buscamos resolver nossos problemas e nossas questões se filiando a partidos, se ligando a entidades, se agregando a comunidades e se segregando cada vez mais em vez de nos unirmos dentro do nosso próprio universo, nos libertando e nos responsabilizando por nossas próprias vidas.
Parece que a única maneira que existe para nos salvarmos, é nos salvar de nós mesmos, e para isso acontecer, a única chance que conheço é a da integração, primeiro internamente com nosso mundo mental, para depois nos integrarmos com os outros e com o mundo. Nossa salvação está em nos mesmos, sem nenhum sentido místico nisso, e o caminho me parece um só: O inconsciente.

Marcos C. Ciciarelli é Psicanalista.

terça-feira, 26 de maio de 2015

VOCÊ TRABALHA POR PROFISSÃO OU VOCAÇÃO?

Profissão e vocação são coisas diferentes. A realização e a plenitude, serão  encontradas na diferença entre aquilo que fazemos como trabalho por obrigação de profissão ou amor de vocação.
Profissão é o que se faz para ganhar dinheiro, é algo que se aprende, as profissões nos são ensinadas de fora para dentro, são escolhidas ou por razoes praticas, ou por imposições externas ou por ilusões. A primeira é aquela que normalmente acontece quando o filho resolve seguir a profissão do pai, para aproveitar as benesses da clientela formada e um nome já concretizado, a segunda é quando o pai ou alguém da família impõe ao jovem a continuidade do negócio ou do escritório da família e a terceira é quando, por exemplo a mãe acha uma profissão maravilhosa, charmosa e rentável e por isso o jovem não pode ter outra escolha.
Vocação é bem diferente, não pode ser ensinada, não se aprende, ela nasce com a gente, brota de dentro do corpo/alma, como fonte. Vocação vem do verbo “vocare”, que quer dizer “chamar”. É uma voz interior que chama e indica uma direção a ser seguida. Se tal direção for seguida, é até possível que a pessoa venha a ter momentos de felicidade. A vocação nasce com a gente, misteriosamente, ela é nosso caso de amor com algo que se faz.
O filósofo Martin Buber, coloca a vocação bem no centro da sua filosofia. Ele diz que, em cada um de nós, há uma voz que nos chama a seguir um caminho, é a voz que nos seduz a sermos fieis para com o nosso próprio ser. Ela nos revela o caminho que deve ser seguido para que possamos realizar a verdade que dorme em nós. Ao ouvir a voz, o individuo se aproxima do que ele realmente é e daquilo que ele deve ser. Se ele não a obedecer, acabará por perder o senso de direção e poderá passar o resto da vida a procura de algo que ele não sabe o que é. Não são poucos os profissionais bem-sucedidos cujas vidas são um tédio sem fim.
Neste monstruoso mercado de profissões, com tantas exigências e interferências, o barulho é tão grande que as pessoas, na maioria das vezes, não conseguem ouvir a voz que lhes fala de dentro. Escolhem suas profissões como bois que vão para o matadouro.
Eu, por profissão, trabalhei durante anos no mercado financeiro como executivo e consultor, mais tarde em minha vida, graças a psicanálise consegui ouvir e seguir minha voz interior e me tornei psicanalista, que é um oficio e é a minha vocação.
Um tal de Noé, por profissão fabricava vinhos, bem mais tarde em sua vida ouviu uma voz interior e se tornou um construtor de navio. Se não fosse por isso, ele teria morrido afogado.

Marcos C. Ciciarelli, é Psicanalista.

Bibliografia:

-ALVES, R. Conversas sobre educação. Campinas, SP: Versus Editora, 2003.

terça-feira, 12 de maio de 2015

POSSO FAZER PSICANÁLISE COM UM AMIGO?

Sim, claro que pode. Esta é uma pergunta que me fazem com frequência e mais uma das várias místicas que permeiam o mundo da psicanálise. Não sei quanto as outras linhas psicoterapêuticas, mas na psicanálise, em toda sua obra teórica desde seu fundador S. Freud, até os mais atuais, não há uma linha se quer onde se diz ser proibido ou impossível a realização de um processo de análise entre duas pessoas que se conhecem, ou que se consideram amigas. Há sim, alguns aconselhamentos e ressalvas sobre o atendimento de amigos. No caso dos psicólogos clínicos, o próprio Conselho Regional de Psicologia diz: "A decisão pelo atendimento é do(a) psicólogo(a), que considerará se o atendimento interferirá negativamente nos objetivos do serviço prestado, uma vez que não há nada na regulamentação que proíba especificamente o atendimento de familiares e/ou conhecidos(as)." 

Podemos então partir deste ponto: Outro dia encontrei um amigo que eu não via e não falava com ele a mais de vinte anos. Ao me encontrar, logo me abordou dizendo que vinha passando por problemas que encadearam alguns sintomas de pânico, me disse que estava tomando algumas medicações e que outro dia em um jantar entre amigos, quando a conversa girou neste assunto, alguém disse o meu nome e indicou que me procurasse. Ele achou a ideia excelente, mas neste exato momento, alguém na mesa disse: “Nem precisa procurá-lo, se vocês são amigos, você não pode fazer análise com ele”.

Afinal, qual é o conceito de amizade? Quando é que duas pessoas podem se considerar amigas? Aquele que você considera amigo te considera da mesma forma? Então, qual é o “nível” de amizade permitido para que possa haver um processo saudável e de sucesso em psicanálise? Se entramos por aí, iremos navegar por uma seara nada psicanalítica, ou seja, a de tabelar e ou mensurar as coisas. Psicanálise e dogma não combinam, ou melhor, não podem estar nem próximos um do outro, níveis de amizade não existem, o que existem são escolhas: “Este é meu amigo”, “aquele é meu conhecido” e “fulano é meu colega”, ou então, “com este eu faço analise”, “com aquele eu não faço análise” e “com fulano eu até faria análise”. O que estou querendo dizer é que, o grau de relacionamento que você tem com uma pessoa, não se torna um fator de inclusão e ou de exclusão em um contexto analítico entre ambos.

A amizade pode ser até mesmo uma vantagem para o processo, pois com ela, vem junto uma boa carga de empatia, carinho, identificação e outras coisas mais que são muito importantes em um processo de análise, mas pode ser também uma desvantagem, assim como em qualquer relação profissional entre amigos. Para ficar mais claro, vejamos alguns exemplos que já presenciei em minha vida: Um investidor pode querer não investir seu dinheiro na corretora de um amigo, pois ele não quer que o amigo saiba quanto e nem a origem do dinheiro que ele tem. Um cliente pode não querer levar seu carro na oficina de seu amigo, pois ouviu falar que os serviços não eram tão bons e ele não queria estragar a amizade. Ou então, um paciente só freqüenta consultórios de médicos amigos, pois se sente mais acolhido e protegido. Ou o executivo prefere contratar amigos, pois confia mais neles do que em desconhecidos. Afinal, que amigo são esses?

Com a psicanálise isso também ocorre. Óbvio que são coisas distintas e o processo analítico pode tocar em coisas bastante complicadas o que pode mexer profundamente com os dois envolvidos. Por isso, acredito que para se atender ao chamado de um amigo para se fazer análise, o analista tem que estar muito bem preparado, pois provavelmente enfrentará maiores complicações nas questões de transferência e contra transferência o que pode tornar o processo um pouco mais difícil e delicado. Mas nada impede que tal processo ocorra, pois se analisando e analista se escolheram, é por que ambos se identificaram e perceberam que na formação daquela dupla estava a chave para o caminho que deveria ser perseguido.

Em tempo, eu atendo meus amigos sem problemas. Não existe uma regra básica, porém procuro evitar se possível, somente os que são muito íntimos, que freqüentam minha casa e eu as deles e das quais as mulheres e filhos também tem um forte laço de amizade. Ou seja, se você é analista e tem um amigo que você não vê com freqüência, não se relaciona com seus familiares com freqüência e não tem muita ideia do que se passa com ele. Talvez um processo de análise seja uma boa oportunidade de vocês estarem mais próximos e numa relação que tem tudo para ser mais construtiva e interessante do que a da "amizade meia boca” que vocês vem levando a muito tempo.


Marcos Ciciarelli, Psicanalista.

terça-feira, 28 de abril de 2015

LOUCOS POR DINHEIRO.

Nossa relação com o dinheiro é e sempre foi complexa e conturbada. Desde sua criação a milhares de anos, sentimentos de admiração, amor, repudio e ódio se entrelaçam na ligação com o dinheiro em espécie e no que ele pode comprar; sua representação se espalha pelos níveis mais anacrônicos nos deixando cada vez mais perdidos sobre sua real importância.

O psicanalista Adam Phillips em seu livro: “Louco para ser normal” concede um capitulo inteiro sobre a loucura ou a sanidade que o dinheiro representa em nossas vidas.
Em um dos trechos ele rememora a famosa frase do Freud que diz: “A felicidade é a realização adiada de um desejo pré-histórico. Por esta razão a riqueza traz tão pouca felicidade.” O dinheiro não é um desejo infantil, ou seja, só somos realmente felizes quando satisfazemos um desejo da infância. Nenhuma criança quer dinheiro, por isso o dinheiro não satisfaz realmente os adultos quando eles o adquirem.
Segundo Phillips, Freud sugere ainda que, os prazeres infantis de ser amado, afagado, abraçado, cuidado, atendido e considerado; de apenas dormir, comer e brincar, são os verdadeiros prazeres satisfatórios. A idéia de que objetos materiais, inclusive o próprio dinheiro, poderia ser algum tipo de alternativa para essas coisas fundamentais é irrealista.
Percebemos que o dinheiro não satisfaz realmente, mesmo sendo hoje um objeto de desejo universal, onde todo mundo quer mais, mas ninguém nunca tem o suficiente, em outras palavras, o que pensamos que queremos e o que realmente queremos podem estar em conflito, e o dinheiro frustra alguma coisa dentro de nós.
Para Freud, diz Phillips, não é nossa moralidade que está em jogo no amor ao dinheiro, é nossa felicidade, pois é ela que nos mantém sãos. É hoje a forma de loucura mais comum, mais banal, fazer compras sabendo que comprar nunca pode satisfazer muitas das coisas que queremos que satisfaça. Devemos estar reprimindo nossas necessidades, negando ativamente nosso conhecimento do que é que amamos. É a conhecida insanidade da pessoa moderna, querer o que não quer, e ser capaz de esconder isso de si mesma, vivendo como se mais dinheiro significasse mais felicidade.
O dinheiro na visão de Freud, diz Phillips, apresentado como um objeto de desejo, tem sido nossa mais bem-sucedida ferramenta para nos enganarmos com relação ao nosso próprio desejo. Querer dinheiro além do que realmente precisamos para viver, é parte essencial da paixão das pessoas modernas pela ignorância acerca de si mesmas, elas costumam  não só esconder suas reais necessidades, mas também impedir de si mesmas qual poderia ser sua verdadeira aspiração. Talvez no fato de querer, ou simplesmente pensar ou falar sobre o querer, deva ter algo tão perigoso nisso que as pessoas preferem ser enganadas com satisfações substitutas, como drogas, comida ou dinheiro, em vez de buscar seus prazeres mais verdadeiros.
O que o desejo de dinheiro revela para Freud, diz Phillips, é nosso ódio a felicidade, nosso medo da satisfação, nossa fobia da infância. Quando se trata do que mais necessitamos, o dinheiro é um inconveniente. Nosso amor aos bens materiais é um ódio ao que amamos.
Segundo Phillps, Freud ainda nos diz que há uma violência excessiva em nosso desejo de dinheiro, ele destrói nossa felicidade via distração extravagante. O amor ao dinheiro nos extravia dos amores da infância, a loucura do querer humano moderno é não querer saber sobre seu próprio querer. O dinheiro é o emblema para pessoas modernas, do terror de seu próprio desejo.
O adulto são, não é necessariamente infantil ou inocente, mas usou sua maturidade para se adequar à sua infância e gozar plenamente suas satisfações.

Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista.


Bibliografia:

-PHILLIPS, A. Loucos para ser normal – Rio de Janeiro, Zahar Ed. 2008.

domingo, 12 de abril de 2015

VITIMIZAÇÃO!

Muitas vezes observamos pessoas em constante conflito existencial se colocando no papel de vítima. Tal processo se dá quase sempre de forma inconsciente onde o individuo não percebe que está atuando e agindo a mercê de suas condições mentais. É aquele individuo que se sente sempre renegado, acredita que o mundo conspira contra ele e faz questão de alardear à todos sobre sua “pobre” situação. É o famoso coitadinho.

Frases como: “Só eu não tenho herança”, ou, “só comigo acontece essas coisas”, ou então, “eu não posso ter nada que eu quero”, fazem parte de um enorme repertório onde o individuo vitimizado se coloca cada vez mais em estado de compaixão, implorando por ser acudido e amado. Normalmente são pessoas que tem medo de assumir as rédeas da própria vida pois acredita que alguém sempre virá salvá-la. Acha que a saída para seus problemas esta sempre no outro e nunca em si mesmo, adora se colocar para baixo na esperança que alguém venha e o coloque pra cima.

O problema é que na maioria das vezes suas atitudes tem efeito contrário, as pessoas que convivem com estes indivíduos percebem que há algo em desacordo e em vez de compaixão acabam sentindo repudio e intolerância, pois a carência da pessoa vitimizada se torna repetitiva e falseada, tornando o convívio algo quase insuportável, é muito comum que pessoas neste estado fiquem cada vez mais sozinhas, encontrando muita dificuldade em se relacionar com o outro o que as deixa em um estado cada vez pior.

Marcos C. Ciciarelli, psicanalista.