sábado, 4 de agosto de 2012

Eu amo meu cachorro!

A algum tempo atras fomos comemorar o aniversário do meu tio em uma pizzaria aqui de Ribeirão Preto, a família, que é grande, se reuniu em várias mesas que foram juntadas. Já no final da noite, notei que na última mesa do canto onde estavam sentados os adolecentes o silêncio era total. Ao observar melhor, notei que todos os cinco jovens, sem excessão, estavam com seus aparelhos celulares “tuitando”, “mensageando” e sei lá mais o que “ando” com amigos que estavam do outro lado do aparelho. Fiquei intrigado com a cena. Afinal, porque cinco primos da mesma faixa etária e que se dão super bem preferem ficar a maior parte do tempo “conversando” ou buscando informações alheias com outros, do que aproveitar o momento que estão juntos para saborear a presença física de seus familiares? Por que as pessaos quando estão em algum espaço público(aeroportos, rodoviárias, bancos e etc.) preferem ficar infurnados em seus aparelhos telefónicos, seus notebooks, laptops, tablets e outras parafernálias tecnológicas em vez de conversar com seus “vizinhos” de fila de espera. Outro dia, fiz uma viagem de avião e fiquei espantado pelo fato de como as pessoas hoje em dia mal comprimentam os outros que estão ao seu lado, mas se mantém conectado o tempo todo com “alguém” através do celular, email, twitter e facebooks da vida. Sem falar nos mal educados, que conversam em vóz alta em seus telefones-radio, fazendo o favor de fazer você ouvir o que ele e outro fala, ora, faça-me o favor.

Mas o que tem tudo isso a ver com o titúlo deste artigo? Bem, não sei exatamente, mas me parece haver algo muito intrigante nas relações das pessoas com seus animais e que de alguma forma observamos nestas relações “virtuais” que relacionei acima. Acredito que tenha algo muito forte representado aí, algo relacionado ao amor e suas nuances relacionais.

Na semana passada, um paciente meu, chegou ao meu consultório incrivelmente irritado, e ao ser perguntado do porque de tal irritação, logo se pos a contar sobre o problema com o vizinho que tinha um cachorro da raça labrador, que latia sem parar principalmente nos fins de semana. Me disse que os donos(um casal sem filhos), ficavam o dia todo fora por motivo de trabalho e de noite estudavam chegando em casa bem tarde, além disso, nos finais de semana, costumavam viajar para visitar os pais em outra cidade e deixavam o cachorro sozinho. Ao reclamar com o vizinho sobre tais condições de infortúnio e sugerir que o cão fosse dado à alguém que pudesse estar mais presente com ele, ouviu a calorosa frase que intitula este artigo: “Nem pensar…eu amo o meu cachorro”. A algum tempo atrás lí em uma reportagem no jornal “Folha de São Paulo” sobre o aumento significativo do numero de pessoas que possuiam animais domésticos em casa, principalmente cães e gatos, ou seja, cada vez mais as pessoas fazem questão de ter em casa um animal para lhes fazer companhia e ao mesmo tempo se percebe um volume muito maior de casais sem filhos ou com no máximo dois. Ao pensar sobre tudo isso,me veio a mente a frase que um professor de psicanálise me disse a alguns anos atrás: “É muito fácil querer ser amado, o difícil mesmo é amar”.

Me parece que nestes tempos de internet, de cães e gatos domésticos com regalias jamais vistas, a dificuldade de amar se faz presente. Ao amarmos à distância, seja pela internet ou abandonando nossos queridos animais sozinhos em casa, não nos preocupamos com a capacidade de amar e sim com a facilidade de ser amado, afinal, mesmo que você passe a semana toda fora de casa ou longe de seu facebook, assim que você chega, o seu cão vem correndo com o rabo abanando lhe dar um “abraço” e ao se conectar com seus mais de “4.365 amigos” do Face e apertar o cursor no “curtir” tudo volta ao normal.

O filósofo grego Platão já dizia que o amor é essencialmente uma necessidade não satisfeita, é a percepção da falta de alguma coisa essencial para a própria completude. Ou seja, ama-se quando se deseja algo que não se tem. Hoje em dia, parece que as pessoas estão sempre com a sensação de que estão perdendo algo, parece sempre haver algo “melhor” em algum outro lugar ou com alguma outra pessoa, é como se não pudéssemos perder nada, ou seja, se estou jantando com meu tio em seu aniversário estou também com meu amigo na “balada”. Talvez, em um mundo onde o que parece importante é estar conectado a tudo e a todos e as relações virtuais são imprescindíveis e ao mesmo tempo superficiais, os cães e gatos de nossas casas, e principalmente o da casa do vizinho tenham muito a nos ensinar, pois ao abanar o rabinho depois de alguns dias sem vê-lo ou mesmo passear com ele, ele deixa claro que sua capacidade de amar sem exigir muito em troca é muito maior do que a nossa, talvez seja por isso que cada vez mais as pessoas preferem ter seus animais de estimação do que ter algum familiar em sua própria casa, afinal deve-se pensar assim: “Eu amo meu cachorro, eu nem dou muita atenção à ele e mesmo assim quando chego em casa ele vem correndo me lamber e me abraçar”.

Coitado do vizinho, que tem que aguentar o animal angustiado com seus latidos de desespero por não ser amado como gostaria. “Au, au”.


Marcos C. Ciciarelli é psicanalista e filósofo.