quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Cura na Psicanálise.


 Afinal, a psicanálise cura alguém? Ou, cura alguma coisa em alguém? Quem busca uma psicanálise está necessariamente doente ou é alguém que simplesmente se encontra intrigado com suas questões existenciais?

Acredito que de tudo que foi questionado acima um pouco tem de verdade, ou seja, penso que a cura em psicanálise é sim verdadeira apesar de nós analistas não buscarmos curar nosso analisando. A cura vem por “osmose”; sintomas e até mesmo algumas doenças acabam desaparecendo sem mesmo nunca terem sido “tocados” durante as sessões semanais de análise, tal cura tem haver com algo de uma maturidade que trás ao analisando um certo poder em se proteger e ao mesmo tempo se libertar de certas amarras narcísicas que lhe foram construídas ao longo de sua vida, é como se o individuo que fez ou faz análise adquirisse espécies de bactérias psíquicas que os deixassem maturados, assim como são os “queijos curados” que ficam expostos as intempéries do mundo deixando-os mais fortes, saborosos e duradouros. A relação analítica é também uma experiência expositora, onde o analisando por vezes se vê frente a frente com questões que lhe são de suma importância. Mas tal “cura” não se dá da noite para o dia, trata-se de um processo longo que pode durar anos. Aqui cabe então outra questão; quando é que se está curado? Quem é que diz isso? Quem é que sente isso? Analista ou o analisando? Em um tratamento médico, muitas vezes, ou na maioria das vezes, quem dá “alta” ao paciente é o médico e não o paciente, em algumas terapias e psicoterapias também ocorre assim, mas, em psicanálise nem sempre é assim que acontece, penso até que na maioria das vezes é o analisando que se dá alta, é ele que sente e diz que está curado, não no sentido de estar totalmente pronto e sim estar pronto à seguir um outro caminho, um novo caminho, mais ou menos como o filho que se sente pronto pra sair de casa e tocar sua própria vida. 

A busca por análise geralmente vem por decorrência de um processo bastante regressivo e o analista idealizado aparece como uma mãe ou um pai protetor e encaminhador na busca deste caminho transformador. Tal sentimento de cura se dá quando ocorre a desidealização do analista, seria em termos psicanalíticos como “matar o pai”. É quando a relação deixa de ser vertical e passa a ser horizontal, você não vê mais seu analista como um tutor ou mestre e sim como um companheiro, um colega, um outro igual que é diferente. É uma sensação parecida com aquela vivida pelo personagem Eduardo Saverin do filme “A Rede Social” que ao se encontrar com seu rival na sociedade, confronta-o e lhe diz a seguinte frase: “É bom estar perto de você, eu me sinto mais forte na sua presença”.  Essas talvez sejam boas referências para se sentir curado do seu processo analítico, ou pelo menos daquele processo específico com aquele analista. O problema está muitas vezes no próprio analista, que se comporta como aquela mãe que não quer deixar o filho sair de casa. Mesmo sentido que o filho já atingiu a maturidade necessária pra partir, esse analista que tem nele uma necessidade enorme de se sentir amado acaba criando um processo de infantilização na relação com seu analisando e se sente traído com o “abandono”, podendo deixar marcas de um ressentimento narcísico eterno. No seu livro, “Cartas a um jovem terapeuta”, o psicanalista Contardo  Calligares, diz que tal sentimento se dá muitas vezes com analistas que são chefes de escolas, possuem consultórios lotados com analisandos/alunos em análise interminável mantendo um triangulo perigoso, onde professor, analista e a necessidade de ser amado e idealizado se confundem entre si causando um desgaste inevitável que pode levar a ruptura da relação. Se apesar disso tudo o processo mesmo assim foi duradouro e vigoroso, o analisando sai fortalecido, curado e maturado, pronto para encarar sua carreira de analista e a buscar novos horizontes. Lembro-me ter dito certa vez ao meu supervisor uma frase mais ou menos assim: Pode não ser tão difícil matar o pai, o problema maior é o pai aceitar ser morto. Ao se lambuzar em sua própria arrogância, tal pai/analista não percebe que é ele quem precisa retornar ao Divã para se libertar( Por que não se curar...) das novas amarras narcísicas que o seu sucesso e poderio armamentista escolar lhe impuseram.
Marcos Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.