Que maravilha a filosofia, não é?
Durante a minha graduação, a filosofia esteve sempre me espantando, me surpreendendo. Fiquei admirado com o pensamento de Heráclito, depois com a filosofia Socrática, passando pelo medievo, os modernos e contemporâneos, sempre enxergando algo de "Belo" nas teorias e seus teóricos.
No final do curso, não foi diferente, uma disciplina que se chamava "Estética", que significa o poder de sentir, de percepção das coisas, que do ponto de vista filosófico se volta ao estudo racional do belo e da percepção da arte pelo humano.
Não pude deixar de notar a semelhança, mais uma vez, entre filosofia e psicanálise no fantástico texto de Pareyson sobre a interpretação da obra de arte e do belo artístico com a interpretação psicanalítica, que tem tudo a ver com arte, poesia e suas características inacabadas e de infinitude.
E por falar em arte, nada melhor do que o "Renascimento". O fenômeno Renascentista reside tanto na pura diversidade de suas expressões como em seu caráter inovador. No espaço de apenas uma geração, Leonardo da Vinci, Michelângelo e Rafael produziram suas obras primas, Colombo descobriu o "Novo Mundo", Lutero rebelou-se contra a igreja católica e Copérnico teorizou o Universo heliocêntrico. Comparando aos antecessores medievais, o Homem do Renascimento parece ter saltado para uma situação sobre humana, ele era agora capaz de entender e refletir sobre os segredos da natureza, tanto na arte como na ciência, com incrível sofisticação matemática, precisão empírica e inigualável força estética. O homem do Ocidente renascera.
Ao comparar a visão artística do renascimento com o medievo fica claro um distanciamento da figura divina para uma aproximação com a figura do homem. O homem já não era mais tão secundário em relação a Deus, à igreja, ou à natureza. A proclamação de Pico della Mirândola sobre a dignidade humana parecia realizada em muitas frentes e em vários campos de atividade.
Enquanto a Idade Média com seu sistema Feudal e seus dogmas católicos impedia um desenvolvimento científico e estético, pois se prendia a problemática do Belo divino o Renascimento busca justamente o contrário, ou seja, se no medievo o físico era feio, no renascimento é modelo de genialidade e criatividade. Conforme costumava dizer Rafael, o artista deve apresentar em suas obras não o mundo como foi criado por Deus, mas como deveria ser criado. Homem é o que faz de si mesmo e não o que tinha herdado via sangue nobre(propriedade, status).
Como diria Leonardo da Vinci: "A arte é filosofia"
Talvez esteja aí a grande mudança. Para os medievais, a visão artística estava escurecida pelos dogmas da igreja, onde a única visão era a de um belo divino, já com o renascimento a visão artística se resplandece com a própria beleza da filosofia e daquele que a pratica: o homem.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista, Filósofo e Coach.
Marcos Ciciarelli é Psicanalista e Filósofo. Atende jovens e adultos em seu instituto em Ribeirão Preto/SP. Email: mcciciarelli@yahoo.com.br - Facebook: www.facebook.com/mcidehrp
terça-feira, 24 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
Parceiros da Noite - A questão da Homossexualidade
Fiquei muito grato com o convite para fazer os comentários deste maravilhoso filme estrelado pelo magnífico ator Al Pacino. Além da minha presença, os coordenadores do Cine Távola também convidaram o crítico de cinema Alexandre Carlomagno para dividir a mesa e dar suas valorosas opiniões sobre este filme que aborda um assunto bastante polêmico: A homossexualidade. Nos meus comentários utilizei um texto que havia escrito e que publico na integra logo abaixo:
Ao ler o jornal “A Folha de São Paulo” me deparei com duas reportagens na mesma página que me deixaram profundamente preocupado com os rumos que a nossa sociedade se propóe. Em uma delas a manchete se dirigia a questão relacionada a uma “cura” dos gays proposta pela bancada evangélica na camara dos deputados e a outra era sobre uma “profissional” da área psi que se auto-intitula: “Psicologa cristã”. Fiquei pensando se ainda estávamos sobre o domínio da Igreja da Idade Média ou se ainda vivíamos em tribos primitivas onde mitos e ritos selavam as maneiras e os destinos de vida dos homens e das mulheres. Ora, em que tempo estamos vivendo, onde milhões de pessoas precisam se reunir em “Paradas” para defender os direitos de quem eles pensam que são e que de alguma forma parece definí-los de uma vez por todas enquanto humanos. Como alguém, em pleno século 21 pode achar que ser gay ou hétero, evangélico, católico ou ateu pode dizer quem ele é ou quem o outro é. Afinal o que somos? O que significa alguém que é Gay? Ou alguém que seja ateu? E principalmente, por que essas diferenças trazem tanto infortúnio? Por que pessoas são descriminadas por terem determinados comportamentos que aparentemente não estão em conformidade com os da maioria?
Primeiro não podemos nos esquecer que as pessoas são diferentes, ou seja, somos seres singulares, cada um com suas nuances e sua história. Não é incomum observarmos na clínica pessoas que por muito tempo tiveram relações hétero-sexuais chegando a se casar e ter filhos e depois optarem por viver se relacionando com pessoas do mesmo sexo. Muitos deles chegam até nós emocionalmente destruidos, pois a sociedade não os aceita mais, é como se essa pessoa não fosse mais ninguém, mesmo que sempre tenha sido um bom profissional, bom marido, bom pai, bom amigo, por vezes tal pessoa é rejeitada por todos ou quase todos fazendo com que passe a viver em guetos.
Na prática clínica percebemos que tais definições não passam de pseudo-definições, a coisa é muito mais complexa do que podemos imaginar. Em nosso psiquismo, o conjunto de desejos e circuitos pulsionais nos coloca, ou melhor, nos deixa em uma condição de refém em relação a determinados conhecimentos sobre nós mesmos e principalmente em relação ao outro. Desde o início da psicanálise, Freud nos deu a noção de que ao nascermos ainda não estamos psiquicamente definidos como seres homo ou hétero em relação a sexualidade, ou seja, não ocorre em nós logo de início uma espécie de “marca” biológica que vai nos dizer definidamente quem somos. Em nosso aparelho psíquico, nem sempre 2+2 são 4, portanto as coisas se tornam muito mais complexas do que a maioria de nós pensa ou gostaria que fosse, ou seja, não dá para definir alguém por causa de seus afetos eróticos. Não se pode colocar alguém no limbo por gostar de se relacionar com que quer que seja. Não é uma doença se relacionar com alguém do mesmo sexo, haja vista que isso ocorre com todos nós. O próprio Freud teve relações apaixonadas com companheiros e discípulos e nem por isso mantinha relações sexuais com eles, ou seja, a relação sexual no sentido estrito da palavra, é apenas uma outra instância de uma relação afetiva e ou erótica. Quero dizer com isso que em nada difere psiquicamente em nós uma relação homo-afetiva que tenha um cunho sexual ou não, e mais, podemos e temos o tempo todo relações homo-afetivas, homo-eróticas e homo-sexuais com pessoas do sexo oposto. Ora, mais como isso é possível? Isso ocorre através de nossas relações transferenciais, onde por vezes colocamos o outro na posição de um outro e que pode ser de outro sexo. Na relação psicanalítica isto é muito comum, o psicanalista é sempre colocado no papel de pai, mãe, marido e esposa por exemplo, nas relações pessoais por vezes nos relacionamos com pessoas de um sexo oposto mas que inconscientemente estamos na verdade nos relacionando com “algo” do mesmo sexo daquela pessoa. Observamos muito isso com o fetiche em relação a determinado objeto por exemplo. Bem, não pretendo entrar aqui muito na teoria, pois a ideia não é essa. A ideia é sim a de debater sobre posições talvez impostas por questões culturais arcaicas que implicam em desentendimentos que me parecem desnecessários nesta altura do campeonato. Talvez devêssemos estar perdendo nosso precioso tempo com coisas mais produtivas em relação a humanidade e não a de se curar algo que não é considerado doença nem mesmo pelos médicos e muito menos a ideia de que um curador tenha ou possa estar ligado a algo divino para realizar tal cura. Profissionais da área psi, tem de ser isentos de qualquer tipo de preconceito e se abster totalmente de qualquer tipo de julgamento, podem até ter suas crenças e preferências pessoais, mas isso deve ficar fora do consultório. Devemos lembrar que o que trás o paciente até o nosso consultório não é o sofrimento imposto por sua escolha ou dúvida sexual, e sim a tormenta emocional que esta sociedade dogmática e arcaica lhe impõe por aparentemente não fazer parte de uma pseudo-maioria de gente que se pensa normal e virtuosa.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.
Ao ler o jornal “A Folha de São Paulo” me deparei com duas reportagens na mesma página que me deixaram profundamente preocupado com os rumos que a nossa sociedade se propóe. Em uma delas a manchete se dirigia a questão relacionada a uma “cura” dos gays proposta pela bancada evangélica na camara dos deputados e a outra era sobre uma “profissional” da área psi que se auto-intitula: “Psicologa cristã”. Fiquei pensando se ainda estávamos sobre o domínio da Igreja da Idade Média ou se ainda vivíamos em tribos primitivas onde mitos e ritos selavam as maneiras e os destinos de vida dos homens e das mulheres. Ora, em que tempo estamos vivendo, onde milhões de pessoas precisam se reunir em “Paradas” para defender os direitos de quem eles pensam que são e que de alguma forma parece definí-los de uma vez por todas enquanto humanos. Como alguém, em pleno século 21 pode achar que ser gay ou hétero, evangélico, católico ou ateu pode dizer quem ele é ou quem o outro é. Afinal o que somos? O que significa alguém que é Gay? Ou alguém que seja ateu? E principalmente, por que essas diferenças trazem tanto infortúnio? Por que pessoas são descriminadas por terem determinados comportamentos que aparentemente não estão em conformidade com os da maioria?
Primeiro não podemos nos esquecer que as pessoas são diferentes, ou seja, somos seres singulares, cada um com suas nuances e sua história. Não é incomum observarmos na clínica pessoas que por muito tempo tiveram relações hétero-sexuais chegando a se casar e ter filhos e depois optarem por viver se relacionando com pessoas do mesmo sexo. Muitos deles chegam até nós emocionalmente destruidos, pois a sociedade não os aceita mais, é como se essa pessoa não fosse mais ninguém, mesmo que sempre tenha sido um bom profissional, bom marido, bom pai, bom amigo, por vezes tal pessoa é rejeitada por todos ou quase todos fazendo com que passe a viver em guetos.
Na prática clínica percebemos que tais definições não passam de pseudo-definições, a coisa é muito mais complexa do que podemos imaginar. Em nosso psiquismo, o conjunto de desejos e circuitos pulsionais nos coloca, ou melhor, nos deixa em uma condição de refém em relação a determinados conhecimentos sobre nós mesmos e principalmente em relação ao outro. Desde o início da psicanálise, Freud nos deu a noção de que ao nascermos ainda não estamos psiquicamente definidos como seres homo ou hétero em relação a sexualidade, ou seja, não ocorre em nós logo de início uma espécie de “marca” biológica que vai nos dizer definidamente quem somos. Em nosso aparelho psíquico, nem sempre 2+2 são 4, portanto as coisas se tornam muito mais complexas do que a maioria de nós pensa ou gostaria que fosse, ou seja, não dá para definir alguém por causa de seus afetos eróticos. Não se pode colocar alguém no limbo por gostar de se relacionar com que quer que seja. Não é uma doença se relacionar com alguém do mesmo sexo, haja vista que isso ocorre com todos nós. O próprio Freud teve relações apaixonadas com companheiros e discípulos e nem por isso mantinha relações sexuais com eles, ou seja, a relação sexual no sentido estrito da palavra, é apenas uma outra instância de uma relação afetiva e ou erótica. Quero dizer com isso que em nada difere psiquicamente em nós uma relação homo-afetiva que tenha um cunho sexual ou não, e mais, podemos e temos o tempo todo relações homo-afetivas, homo-eróticas e homo-sexuais com pessoas do sexo oposto. Ora, mais como isso é possível? Isso ocorre através de nossas relações transferenciais, onde por vezes colocamos o outro na posição de um outro e que pode ser de outro sexo. Na relação psicanalítica isto é muito comum, o psicanalista é sempre colocado no papel de pai, mãe, marido e esposa por exemplo, nas relações pessoais por vezes nos relacionamos com pessoas de um sexo oposto mas que inconscientemente estamos na verdade nos relacionando com “algo” do mesmo sexo daquela pessoa. Observamos muito isso com o fetiche em relação a determinado objeto por exemplo. Bem, não pretendo entrar aqui muito na teoria, pois a ideia não é essa. A ideia é sim a de debater sobre posições talvez impostas por questões culturais arcaicas que implicam em desentendimentos que me parecem desnecessários nesta altura do campeonato. Talvez devêssemos estar perdendo nosso precioso tempo com coisas mais produtivas em relação a humanidade e não a de se curar algo que não é considerado doença nem mesmo pelos médicos e muito menos a ideia de que um curador tenha ou possa estar ligado a algo divino para realizar tal cura. Profissionais da área psi, tem de ser isentos de qualquer tipo de preconceito e se abster totalmente de qualquer tipo de julgamento, podem até ter suas crenças e preferências pessoais, mas isso deve ficar fora do consultório. Devemos lembrar que o que trás o paciente até o nosso consultório não é o sofrimento imposto por sua escolha ou dúvida sexual, e sim a tormenta emocional que esta sociedade dogmática e arcaica lhe impõe por aparentemente não fazer parte de uma pseudo-maioria de gente que se pensa normal e virtuosa.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 10 de julho de 2012
Circulô Saber
Na foto: Marcos Ciciarelli, Dr. Alcides de Souza, Dr. Marcelo Ciciarelli e Luis Henrique Milan Novaes. No último dia 11/06/12 recebí como curador, o psicanalista Dr. Alcides de Souza e o neurologista Dr. Marcelo C. Ciciarelli, para um descontraído bate papo sobre a "Dor e a delícia de ser" no Cervejáriun em Ribeirão Preto. Foi um prazer enorme receber a todos que lá estiveram e puderam desfrutar de um momento recheado de sabedoria e informação. Obrigado mais uma vez.
A alma não é uma coisa.
Este é o título de um capitulo do livro "Por que a psicanálise?" da brilhante escritora, historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, onde ela cita algo como: "Quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é a psicanálise. Não mais sentir vergonha se si mesmo é a realização da liberdade. É isso que uma análise bem conduzida ensina aos que pedem socorro a ela e guardam por seus psicanalistas uma gratidão infinita."
Em uma sociedade cada vez mais pragmática, liberal depressiva e sem tempo pra nada, observa-se na clínica uma parcela cada vez maior de pessoas carregadas de angústia, ansiedade, agitação e melancolia, tentando se safar através de tratamentos rápidos e psicofarmácos "mágicos", buscando uma posição cada vez menos conflituosa. Pensar dói e é difícil, porém, onde há o sujeito, a paixão, o desejo e uma história, não há outra saída. A psicanálise conquista o mundo através da singularidade da experiência subjetiva, colocando o inconsciente, a perda e a sexualidade no cerne da alma humana.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.
Em uma sociedade cada vez mais pragmática, liberal depressiva e sem tempo pra nada, observa-se na clínica uma parcela cada vez maior de pessoas carregadas de angústia, ansiedade, agitação e melancolia, tentando se safar através de tratamentos rápidos e psicofarmácos "mágicos", buscando uma posição cada vez menos conflituosa. Pensar dói e é difícil, porém, onde há o sujeito, a paixão, o desejo e uma história, não há outra saída. A psicanálise conquista o mundo através da singularidade da experiência subjetiva, colocando o inconsciente, a perda e a sexualidade no cerne da alma humana.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.
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