Fiquei muito grato com o convite para fazer os comentários deste maravilhoso filme estrelado pelo magnífico ator Al Pacino. Além da minha presença, os coordenadores do Cine Távola também convidaram o crítico de cinema Alexandre Carlomagno para dividir a mesa e dar suas valorosas opiniões sobre este filme que aborda um assunto bastante polêmico: A homossexualidade. Nos meus comentários utilizei um texto que havia escrito e que publico na integra logo abaixo:
Ao ler o jornal “A Folha de São Paulo” me deparei com duas reportagens na mesma página que me
deixaram profundamente preocupado com os rumos que a nossa sociedade se propóe.
Em uma delas a manchete se dirigia a questão relacionada a uma “cura” dos gays
proposta pela bancada evangélica na camara dos deputados e a outra era sobre
uma “profissional” da área psi que se auto-intitula: “Psicologa cristã”. Fiquei
pensando se ainda estávamos sobre o domínio da Igreja da Idade Média ou se
ainda vivíamos em tribos primitivas onde mitos e ritos selavam as maneiras e os
destinos de vida dos homens e das
mulheres. Ora, em que tempo estamos vivendo, onde milhões de pessoas
precisam se reunir em “Paradas” para defender os direitos de quem eles pensam
que são e que de alguma forma parece definí-los de uma vez por todas enquanto
humanos. Como alguém, em pleno século 21 pode achar que ser gay ou hétero,
evangélico, católico ou ateu pode dizer quem ele é ou quem o outro é. Afinal o
que somos? O que significa alguém que é Gay? Ou alguém que seja ateu? E
principalmente, por que essas diferenças trazem tanto infortúnio? Por que pessoas
são descriminadas por terem determinados comportamentos que aparentemente não
estão em conformidade com os da maioria?
Primeiro não podemos nos esquecer que as pessoas são diferentes, ou seja, somos seres singulares, cada um com suas nuances e sua história. Não é incomum observarmos na clínica pessoas que por muito tempo tiveram relações hétero-sexuais chegando a se casar e ter filhos e depois optarem por viver se relacionando com pessoas do mesmo sexo. Muitos deles chegam até nós emocionalmente destruidos, pois a sociedade não os aceita mais, é como se essa pessoa não fosse mais ninguém, mesmo que sempre tenha sido um bom profissional, bom marido, bom pai, bom amigo, por vezes tal pessoa é rejeitada por todos ou quase todos fazendo com que passe a viver em guetos.
Na prática clínica percebemos que tais definições não passam de pseudo-definições, a coisa é muito mais complexa do que podemos imaginar. Em nosso psiquismo, o conjunto de desejos e circuitos pulsionais nos coloca, ou melhor, nos deixa em uma condição de refém em relação a determinados conhecimentos sobre nós mesmos e principalmente em relação ao outro. Desde o início da psicanálise, Freud nos deu a noção de que ao nascermos ainda não estamos psiquicamente definidos como seres homo ou hétero em relação a sexualidade, ou seja, não ocorre em nós logo de início uma espécie de “marca” biológica que vai nos dizer definidamente quem somos. Em nosso aparelho psíquico, nem sempre 2+2 são 4, portanto as coisas se tornam muito mais complexas do que a maioria de nós pensa ou gostaria que fosse, ou seja, não dá para definir alguém por causa de seus afetos eróticos. Não se pode colocar alguém no limbo por gostar de se relacionar com que quer que seja. Não é uma doença se relacionar com alguém do mesmo sexo, haja vista que isso ocorre com todos nós. O próprio Freud teve relações apaixonadas com companheiros e discípulos e nem por isso mantinha relações sexuais com eles, ou seja, a relação sexual no sentido estrito da palavra, é apenas uma outra instância de uma relação afetiva e ou erótica. Quero dizer com isso que em nada difere psiquicamente em nós uma relação homo-afetiva que tenha um cunho sexual ou não, e mais, podemos e temos o tempo todo relações homo-afetivas, homo-eróticas e homo-sexuais com pessoas do sexo oposto. Ora, mais como isso é possível? Isso ocorre através de nossas relações transferenciais, onde por vezes colocamos o outro na posição de um outro e que pode ser de outro sexo. Na relação psicanalítica isto é muito comum, o psicanalista é sempre colocado no papel de pai, mãe, marido e esposa por exemplo, nas relações pessoais por vezes nos relacionamos com pessoas de um sexo oposto mas que inconscientemente estamos na verdade nos relacionando com “algo” do mesmo sexo daquela pessoa. Observamos muito isso com o fetiche em relação a determinado objeto por exemplo. Bem, não pretendo entrar aqui muito na teoria, pois a ideia não é essa. A ideia é sim a de debater sobre posições talvez impostas por questões culturais arcaicas que implicam em desentendimentos que me parecem desnecessários nesta altura do campeonato. Talvez devêssemos estar perdendo nosso precioso tempo com coisas mais produtivas em relação a humanidade e não a de se curar algo que não é considerado doença nem mesmo pelos médicos e muito menos a ideia de que um curador tenha ou possa estar ligado a algo divino para realizar tal cura. Profissionais da área psi, tem de ser isentos de qualquer tipo de preconceito e se abster totalmente de qualquer tipo de julgamento, podem até ter suas crenças e preferências pessoais, mas isso deve ficar fora do consultório. Devemos lembrar que o que trás o paciente até o nosso consultório não é o sofrimento imposto por sua escolha ou dúvida sexual, e sim a tormenta emocional que esta sociedade dogmática e arcaica lhe impõe por aparentemente não fazer parte de uma pseudo-maioria de gente que se pensa normal e virtuosa.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista e Filósofo.

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