LOUCOS POR
DINHEIRO.
Nossa relação com o dinheiro é e sempre foi complexa e
conturbada. Desde sua criação a milhares de anos, sentimentos de admiração,
amor, repudio e ódio se entrelaçam na ligação com o dinheiro em espécie e no
que ele pode comprar; sua representação se espalha pelos níveis mais anacrônicos
nos deixando cada vez mais perdidos sobre sua real importância.
O psicanalista Adam Phillips em seu livro: “Louco para ser
normal” concede um capitulo inteiro sobre a loucura ou a sanidade que o
dinheiro representa em nossas vidas.
Em um dos trechos ele rememora a famosa frase do Freud que
diz: “A felicidade é a realização adiada de um desejo pré-histórico. Por esta razão
a riqueza traz tão pouca felicidade.” O dinheiro não é um desejo infantil, ou
seja, só somos realmente felizes quando satisfazemos um desejo da infância.
Nenhuma criança quer dinheiro, por isso o dinheiro não satisfaz realmente os
adultos quando eles o adquirem.
Segundo Phillips, Freud sugere ainda que, os prazeres
infantis de ser amado, afagado, abraçado, cuidado, atendido e considerado; de
apenas dormir, comer e brincar, são os verdadeiros prazeres satisfatórios. A idéia
de que objetos materiais, inclusive o próprio dinheiro, poderia ser algum tipo
de alternativa para essas coisas fundamentais é irrealista.
Percebemos que o dinheiro não satisfaz realmente, mesmo sendo
hoje um objeto de desejo universal, onde todo mundo quer mais, mas ninguém nunca
tem o suficiente, em outras palavras, o que pensamos que queremos e o que
realmente queremos podem estar em conflito, e o dinheiro frustra alguma coisa
dentro de nós.
Para Freud, diz Phillips, não é nossa moralidade que está em
jogo no amor ao dinheiro, é nossa felicidade, pois é ela que nos mantém sãos. É
hoje a forma de loucura mais comum, mais banal, fazer compras sabendo que comprar
nunca pode satisfazer muitas das coisas que queremos que satisfaça. Devemos
estar reprimindo nossas necessidades, negando ativamente nosso conhecimento do
que é que amamos. É a conhecida insanidade da pessoa moderna, querer o que não
quer, e ser capaz de esconder isso de si mesma, vivendo como se mais dinheiro
significasse mais felicidade.
O dinheiro na visão de Freud, diz Phillips, apresentado como
um objeto de desejo, tem sido nossa mais bem-sucedida ferramenta para nos
enganarmos com relação ao nosso próprio desejo. Querer dinheiro além do que
realmente precisamos para viver, é parte essencial da paixão das pessoas
modernas pela ignorância acerca de si mesmas, elas costumam não só esconder suas reais necessidades, mas também
impedir de si mesmas qual poderia ser sua verdadeira aspiração. Talvez no fato
de querer, ou simplesmente pensar ou falar sobre o querer, deva ter algo tão perigoso
nisso que as pessoas preferem ser enganadas com satisfações substitutas, como
drogas, comida ou dinheiro, em vez de buscar seus prazeres mais verdadeiros.
O que o desejo de dinheiro revela para Freud, diz Phillips, é
nosso ódio a felicidade, nosso medo da satisfação, nossa fobia da infância.
Quando se trata do que mais necessitamos, o dinheiro é um inconveniente. Nosso
amor aos bens materiais é um ódio ao que amamos.
Segundo Phillps, Freud ainda nos diz que há uma violência excessiva
em nosso desejo de dinheiro, ele destrói nossa felicidade via distração extravagante.
O amor ao dinheiro nos extravia dos amores da infância, a loucura do querer
humano moderno é não querer saber sobre seu próprio querer. O dinheiro é o
emblema para pessoas modernas, do terror de seu próprio desejo.
O adulto são, não é necessariamente infantil ou inocente, mas
usou sua maturidade para se adequar à sua infância e gozar plenamente suas
satisfações.
Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista.
Bibliografia:
-PHILLIPS, A. Loucos para ser normal – Rio de Janeiro, Zahar
Ed. 2008.
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