terça-feira, 28 de abril de 2015

LOUCOS POR DINHEIRO.

Nossa relação com o dinheiro é e sempre foi complexa e conturbada. Desde sua criação a milhares de anos, sentimentos de admiração, amor, repudio e ódio se entrelaçam na ligação com o dinheiro em espécie e no que ele pode comprar; sua representação se espalha pelos níveis mais anacrônicos nos deixando cada vez mais perdidos sobre sua real importância.

O psicanalista Adam Phillips em seu livro: “Louco para ser normal” concede um capitulo inteiro sobre a loucura ou a sanidade que o dinheiro representa em nossas vidas.
Em um dos trechos ele rememora a famosa frase do Freud que diz: “A felicidade é a realização adiada de um desejo pré-histórico. Por esta razão a riqueza traz tão pouca felicidade.” O dinheiro não é um desejo infantil, ou seja, só somos realmente felizes quando satisfazemos um desejo da infância. Nenhuma criança quer dinheiro, por isso o dinheiro não satisfaz realmente os adultos quando eles o adquirem.
Segundo Phillips, Freud sugere ainda que, os prazeres infantis de ser amado, afagado, abraçado, cuidado, atendido e considerado; de apenas dormir, comer e brincar, são os verdadeiros prazeres satisfatórios. A idéia de que objetos materiais, inclusive o próprio dinheiro, poderia ser algum tipo de alternativa para essas coisas fundamentais é irrealista.
Percebemos que o dinheiro não satisfaz realmente, mesmo sendo hoje um objeto de desejo universal, onde todo mundo quer mais, mas ninguém nunca tem o suficiente, em outras palavras, o que pensamos que queremos e o que realmente queremos podem estar em conflito, e o dinheiro frustra alguma coisa dentro de nós.
Para Freud, diz Phillips, não é nossa moralidade que está em jogo no amor ao dinheiro, é nossa felicidade, pois é ela que nos mantém sãos. É hoje a forma de loucura mais comum, mais banal, fazer compras sabendo que comprar nunca pode satisfazer muitas das coisas que queremos que satisfaça. Devemos estar reprimindo nossas necessidades, negando ativamente nosso conhecimento do que é que amamos. É a conhecida insanidade da pessoa moderna, querer o que não quer, e ser capaz de esconder isso de si mesma, vivendo como se mais dinheiro significasse mais felicidade.
O dinheiro na visão de Freud, diz Phillips, apresentado como um objeto de desejo, tem sido nossa mais bem-sucedida ferramenta para nos enganarmos com relação ao nosso próprio desejo. Querer dinheiro além do que realmente precisamos para viver, é parte essencial da paixão das pessoas modernas pela ignorância acerca de si mesmas, elas costumam  não só esconder suas reais necessidades, mas também impedir de si mesmas qual poderia ser sua verdadeira aspiração. Talvez no fato de querer, ou simplesmente pensar ou falar sobre o querer, deva ter algo tão perigoso nisso que as pessoas preferem ser enganadas com satisfações substitutas, como drogas, comida ou dinheiro, em vez de buscar seus prazeres mais verdadeiros.
O que o desejo de dinheiro revela para Freud, diz Phillips, é nosso ódio a felicidade, nosso medo da satisfação, nossa fobia da infância. Quando se trata do que mais necessitamos, o dinheiro é um inconveniente. Nosso amor aos bens materiais é um ódio ao que amamos.
Segundo Phillps, Freud ainda nos diz que há uma violência excessiva em nosso desejo de dinheiro, ele destrói nossa felicidade via distração extravagante. O amor ao dinheiro nos extravia dos amores da infância, a loucura do querer humano moderno é não querer saber sobre seu próprio querer. O dinheiro é o emblema para pessoas modernas, do terror de seu próprio desejo.
O adulto são, não é necessariamente infantil ou inocente, mas usou sua maturidade para se adequar à sua infância e gozar plenamente suas satisfações.

Marcos C. Ciciarelli, Psicanalista.


Bibliografia:

-PHILLIPS, A. Loucos para ser normal – Rio de Janeiro, Zahar Ed. 2008.

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